O Estado das Artes

12 Maio 2009

Blogum Est

Mais do que nunca convencido de que esta experiência se esgotou , aqui faço nova pausa no "Estado" , provavelmente definitiva . Foi divertido , mas agora é preciso encontrar qualquer coisa nova e diferente , para relançar a motivação . E obrigado , aos mais de 20,000 visitantes que se deram à piedosa curiosidade de passar por aqui . Espero não os ter desiludido .

10 Maio 2009

A Menina Júlia


A menina Júlia era mimada e atrevida , bonita e bem nascida , condições que a recomendavam para um casamento "classe alta" , com dote , véu e grinalda . Em vez disso , porém , apaixonou-se pelo criado da casa , que por sua vez tinha um "arranjo" com a cozinheira , "caldeirada" com potencial para gerar uma série de problemas , como facilmente se adivinha . E como , de facto , viria a acontecer . Esta é , em síntese , a história que nos é contada pela peça de August Strindberg em cena no Teatro D. Maria II , que Rui Mendes encenou e Beatriz Batarda protagoniza . E muito bem , diga-se de passagem , o que me leva a suspeitar que "aqui há actriz" . Suspeita que , de resto , já tinha sido suscitada por alguns dos seus trabalhos anteriores . "Menção honrosa" para Albano Jerónimo e Isabel Abreu , os outros actores que dão suporte às diabruras da menina Júlia .
Sala cheia , embora a peça já tenha estreado há quase um mês , o que parece indicar que a nova direcção artística do D. Maria II quer produzir teatro para o público e não apenas para meia dúzia de "cromos" com gostos bizarros . E o agradável café do Teatro voltou a funcionar . Ôba !!!

09 Maio 2009

Inutilidades

"As guerras e as revoluções - há sempre uma ou outra em curso - chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil. Todos os ideais e todas as ambições são um desvairo de comadres homens. Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata. Que império é útil ou que ideal profícuo? "
Fernando Pessoa , "Livro do Desassossego"

06 Maio 2009

Madrugada em Aveiro

Às cinco da madrugada começaram a sair os carros que enfrentaram corajosamente os quase 900 km de estrada que os haveriam de levar até Tavira . Apreciem a curiosa lanterna "de mineiro" que o João teve que usar para poder navegar e fazer contas enquanto o Sol não aparecesse . Louve-se também o espírito de sacrifício dos tripulantes de carros descapotáveis , uma vez que a noite estava fria e ventosa , como é hábito no litoral .
Só a meio da manhã foi possível tomar um café quente e comer uma "sandes" no simpático Café das Beiras , juntinho à belíssima barragem de Santa Luzia , que desconhecia em absoluto e onde irei voltar muito em breve , com tempo para saborear a paisagem .
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04 Maio 2009

A Maratona


Com muita pena minha , terminou a edição deste ano das 500 Milhas do ACP , durante as quais os concorrentes percorreram algumas das mais belas estradas do país , seleccionadas por uma Organização impecável e aperfeiçoada pelos quatro anos de experiência que a prova já leva . No meu caso pessoal , a "coisa" começou às 05.23 , em Aveiro , e acabou às 22.24 do mesmo dia , em Tavira , o que perfaz nada menos do que 17 ( dezassete !) horas consecutivas ao volante , com 10 minutos para almoçar . Sim , porque foi necessário sacrificar a hora de almoço para ir abastecer em Espanha , uma vez que as bombas de gasolina de Castelo de Vide ou não funcionam ao sábado ou então foram encerradas , devido aos preços mais competitivos do produto no lado de lá da fronteira . De resto , aproveitavam-se as pequenas paragens antes das PECs para reabastecer e fazer uns chi-chis . Nas couves , claro .
Três dos quatro Porsche 356 que partiram de Aveiro ( havia 80 carros à partida , mas só estes é que interessam ... ) chegaram a Tavira sem qualquer sobressalto . Apenas o carro dos Carpinteiro Albino foi obrigado a abandonar , já com a meta à "vista", e quando se batia pela vitória absoluta na prova . Cruel ironia esta , que faz com que alguém que trabalhou arduamente durante dezasseis horas possa ser afastado da competição nos minutos finais só porque , estranhamente , os Porsche também falham . Muito raramente isso acontece , mas acontece .
O "carrito do costume" ( o meu , claro ) dispunha apenas do conta quilómetros original e de um bloco de papel e lápis como instrumentos de navegação , ao contrário de muitos dos participantes ( a maioria ? ) que vinham equipados com Brantz , Haldas , Terra Trips ou similares . Talvez fosse oportuno o ACP começar a pensar em provas "biológicas" , ou seja , exclusivamente para carros que apareçam "tal e qual como vieram ao Mundo" , sem recurso a tecnologias mais ou menos sofisticadas para se orientarem . Penso que isso iria atrair muitos "clássicos" de qualidade que agora acumulam poeira nas respectivas garagens .
Uma palavra final para o João Caldas , meu navegador nesta prova , que fez uma auspiciosa estreia absoluta neste tipo de eventos . Se não fosse um pequeno "sobressalto" numa simples conta de somar , provocado pela fadiga e pela recusa em usar tecnologias actuais , poderíamos estar agora a falar de um resultado verdadeiramente surpreendente .

30 Abril 2009

Signo

( Para a Sara , em dia de aniversário )

*TOURO*(de 21 de Abril a 20 de Maio)

O que é que brilha sem
Ser ouro? - A mulher de touro!
É a companheira perfeita
Quando levanta ou quando deita.
Mas é mulher exclusivista
Se não tem tudo faz a pista.
Depois, que dona de casa...
E à noite ainda manda brasa.
Sua virtude: a paciência
Seu dia bom: a sexta-feira
Sua cor propícia: o verde
As flores dos seus pendores: Rosa, flor de macieira.

Vinicius de Moraes

28 Abril 2009

500 Milhas do ACP

No próximo sábado vai para a estrada a mais "louca" prova de resistência para automóveis clássicos que actualmente se realiza em Portugal . O "road book" vai levar umas dezenas de senhores com idade para terem juízo através de 900 quilómetros de estradas e 16 ( dezasseis ! ) horas de condução consecutivas , com início de madrugada , em Aveiro , e chegada , já noite cerrada , em Tavira , depois de andarem aos "zigzagues" por alguns dos lugares mais bonitos que o país tem para mostrar mas que ninguém vai ter tempo para apreciar .
Nas três edições anteriores - que consegui terminar honrosamente - o percurso ligava as extremidades Norte e Sul de Portugal , nomeadamente de Chaves a Vila Moura , mas este ano alguém achou por bem levar os oitenta carros e cento e sessenta concorrentes a percorrer outros caminhos . Muito bem . Prestem , então , muita atenção ao Porsche nº 523 ( isto quer dizer que a nossa hora de partida será às 05:23 ... ) e à fantástica equipa José Guedes / João Caldas , para que se coloque a pertinente questão : será que cerca de 40,000 horas de voo acumuladas ajudam a que esta dupla não se perca pelo caminho ?
Não percam as cenas dos próximos capítulos .

26 Abril 2009

Confraria da Concórdia

Com mais de seis anos de existência , a Confraria da Concórdia é um clube fechado que acumula entre si mais de trezentos anos de experiência aeronáutica e um milhão de histórias para contar . Da esquerda para a direita , Paulo Maia Loureiro , Luis Freitas Branco , Paulo Achmann , João Braga ( convidado ) , Luis "Celinho" Vasconcelos , Manuel Costa Félix , yours truly , e Carlos Antolin Teixeira . Falta o dono da mais bonita varanda de Cascais e autor da fotografia , José Capela . O grupo já realizou mais de três dezenas de "reuniões magnas" , quase todas com um convidado especial e , excepcionalmente , duas convidadas ( para não dizerem que "isto" é uma coutada machista ) . Das personalidades relevantes para a História da Aviação em Portugal falta convidar o Almirante Gago Coutinho , que não parece estar disponível , e o padre Bartolomeu de Gusmão , que continua retido num romance de Saramago .

25 Abril 2009

Até às Lágrimas

Era impossível resistir . O ambiente estava criado , no pequeno mas excelente auditório do Museu do Oriente , ocupado por um público silencioso e reverencial que seguia em êxtase a sublime liturgia que Stacey Kent e um quarteto de excelentes músicos celebravam no palco . Tudo muito suave e "íntimo" , a transbordar de sensualidade e emoção , até ao momento em que começaram a ouvir-se os lindíssimos "voicings" saídos do piano de Graham Harvey a apoiar as primeiras estrofes de "What a Wonderfull World" , trazidas pela voz sentida de Stacey Kent . Aí , senti um arrepio a atravessar-me o corpo e um par de lágrimas a soltar-se , tal era a emotividade que envolvia aquela sala . Nada de novo , diga-se desde já . A música transmite emoções intensas e as lágrimas são , por vezes , manifestações de prazer e alegria , como foi agora o caso . Lembro-me de ter assistido , nos anos 90 , a um concerto de Art Garfunkell , no Coliseu , que aos primeiros acordes de "Bridge Over Troubled Water" fez "explodir" uma catarata de lágrimas que parecia querer submergir a enorme plateia . Nunca vi nada parecido . À minha volta toda a gente chorava e ria ao mesmo tempo !
Com "What a Wonderfull World" , o lindíssimo tema de George Douglas e David Weiss que Louis Armstrong tão genialmente celebrizou , Stacey Kent transportou para essa dimensão uns quantos sortudos que nasceram com a capacidade de se deixarem dominar por essa estranha ( mas deliciosamente saborosa ) corrente de sentimentos .

23 Abril 2009

A Campanha do Argus

Se alguém tivesse ( ou tiver ) dúvidas sobre a matéria de que eram feitos os
navegadores das descobertas , este livro aí está para as esclarecer . Trata-se de um relato de uma campanha de pesca de bacalhau nos bancos da Terra Nova , escrito por Alan Villiers , um australiano a quem o Estado Novo encomendou este extraordinário trabalho , para dar a conhecer ao Mundo a brutal dureza desta actividade e a imensa coragem dos pescadores . E tudo isto se passou há cerca de 50 anos e não há cinco séculos , como parece .
Missões com seis meses de duração nas águas geladas do Ártico , em condições de conforto que nem os frades capuchinhos aceitariam , colocavam à prova a resistência física e psíquica destes homens , obrigados a passar centenas de horas na solidão dos seus dóris enquanto pescavam à linha o bacalhau que , mais tarde , acabaria nas mesas dos portugueses . Mas o dóri representava apenas uma parte do trabalho , uma vez que após "garfarem" o peixe para o navio-mãe após dez horas de pesca debaixo de temperaturas negativas , os pescadores ainda tinham que "amanhar" e tratar o bacalhau durante algumas horas mais , até poderem comer uma refeição quente e tirar algumas horas de mais que merecido repouso . No mar , a temperatura era tão baixa que bastava uma queda na água para provocar a morte por hipotermia em poucos instantes , se a ajuda não fosse imediata . E como "equipamento" de navegação , cada dóri levava apenas uma bússula encastrada numa caixa de madeira , que dava ao pescador uma ideia aproximada da posição do navio-mãe quando o nevoeiro se instalava , o que acontecia com assustadora frequência . Por vezes acontecia que os dóris não regressavam , ao fim do dia , o que significava que o respectivo tripulante se perdera e estaria a correr grave risco de vida . Alguns morriam , outros tinham a sorte de serem encontrados à deriva dias depois , ainda com vida , e outros conseguiam até chegar a terra firme , por mero acaso .
Recomendo vivamente a leitura desta obra , para que a actual geração se dê conta de como era dura e difícil a vida destes portugueses . Homens de imensa coragem e resistência , bem à altura daqueles que descobriram o Mundo a bordo das suas modestas e instáveis caravelas , sem conforto , sem GPS e sem "subsídio de intempérie"*
* - curiosa designação para a compensação monetária que alguns trabalhadores da TAP exigiram , nos anos 80 , para trabalharem no exterior em condições de chuva ou frio . E conseguiram .