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O Bugatti #51158

No dia 20 de Outubro de 1935, Francisco Ribeiro Ferreira apresentou no Circuito do Estoril o seu recém adquirido Bugatti 51, chassis # 51158. O carro, ainda pintado com o seu azul original (mais tarde seria pintado de vermelho e branco, as cores nacionais para as corridas de automóveis), tinha chegado três dias antes à fronteira portuguesa no combóio proveniente de França, tendo aí sido recolhido pelo seu novo proprietário que o conduziu até Lisboa. Apesar disso, o Bugatti 51 estreou-se a ganhar no Estoril.
No ano seguinte, Francisco Ribeiro Ferreira inscreveu este mesmo carro na categoria "Corrida" do V Circuito de Vila Real e , apesar de ter feito o melhor tempo nos treinos, terminaria em segundo lugar com uma volta de atraso em relação ao vencedor, Vasco Sameiro. A necessidade de mudar uma roda durante a corrida terá estado na base deste resultado.
Em 1938 o #51158 passou para as mãos de Casimiro de Oliveira, que com ele disputou o Circuito de Vila Real, tendo abandonado ao fim de apenas oito voltas. Meses mais tarde o mesmo piloto iria disputar o Circuito da Gávea, no Rio de Janeiro, mas o Bugatti 51 voltou a não colaborar.
Bibliografia :
- Circuito de Vila Real 1931 - 1973, de Carlos Guerra
- Bugattis in Portugal, de J. Touzet
- Fotografia original de Clemente Meneres, gentilmente cedida por Manuel Meneres.
- Colaboração de Ângelo Pinto da Fonseca.

Francisco Ribeiro Ferreira, Circuito de Vila Real 1936

XIII Rallye de Monte Carlo

Em 1934, a equipa portuguesa formada por Francisco Ribeiro Ferreira, António Guedes de Herédia e Virgílio Barroso, tripulando um "Terraplane", participou no XIII Rallye de Monte Carlo, tendo percorrido exactamente 3,786 quilómetros para fazer a ligação entre Sofia, que foi a sua cidade de partida, e Monte Carlo. 
Durante os vários dias necessários para ligar a capital búlgara ao principado, foram várias as peripécias que aconteceram, como se esperava de uma grande aventura como esta. Tendo partido às 5 da madrugada de Sofia, esqueceram os respectivos passaportes na recepção do hotel e só se deram conta do facto quando chegaram à fronteira com a Grécia. Impedidos de prosseguir e não havendo nas proximidades qualquer telefone utilizável, decidiram regressar a Sofia, mas quando chegaram ao hotel foi-lhes dito que os passaportes já tinham seguido para Salonica, aproveitando um portador acidental, Lord Clifford, que se deu conta da falha dos portugueses e se ofereceu para os ajudar.
Apesar de ter perdido um dia inteiro com este erro, a equipa portuguesa conquistou um brilhante 4º lugar na classificação geral, entre 114 concorrentes à partida. Um outro português, Bento de Sousa Amorim,  terminou em 81º lugar, tendo partido de Valença ao volante de um Ford.
Bento de Sousa Amorim viria a ter uma importância decisiva na criação e expansão do circuito de Vila do Conde, cidade onde residia e onde chegou a liderar o respectivo município.





A Aprendizagem

O Conde de Monte Real, tal como muitos outros automobilistas de sucesso, também começou a sua  carreira desportiva participando em corridas de motos. A imagem de cima documenta a sua participação (ao fundo, de óculos) no Cross do Benfica de 1934, tendo a seu lado Gueifão Ferreira e Luis Lopes, todos em Rudge.
Ernesto "Nené" Neves, que viria a ser o piloto português com mais campeonatos nacionais conquistados em menos espaço de tempo (registo que ainda se mantém) fez-se fotografar em 1958, com apenas 12 anos de idade, aos comandos da Gilera com a qual o irmão Luis disputava provas de motociclismo, antes de ele próprio se estrear na modalidade em 1963. Note-se o emblema da Abarth na manga da camisola, sinal inconfundível do que estava para vir.
A ligação do Conde de Monte Real a Ernesto Neves não é acidental, uma vez que a vida de ambos se cruzou com intensidade durante muito tempo para além dos automóveis.




Motos no Parque Eduardo VII

Em junho de 1934 mais de 30 mil pessoas convergem para o Parque Eduardo VII onde, perante o Presidente da República, Marechal Oscar Carmona, se disputam pela primeira vez corridas de automóveis e motos. Como se vê pelas imagens, as motos inglesas Rudge dominaram completamente a concorrência durante o I Circuito do Parque Eduardo VII. Angelo Bastos, em Rudge, seria o vencedor em motos, no ano em que que Alexandre Black (Norton) se tornou Campeão Nacional. Nos automóveis o vencedor seria Jorge Seixas, em Ford.
D. Fernando Mascarenhas (moto nº 11), tal como outros depois de si (Ernesto Neves, John Surtees, Mike Hailwood, etc) , faria a sua aprendizagem em duas rodas antes de passar para os automóveis de corrida.


Os vencedores, todos em Rudge: José Martins, em 250 cc, Angelo Bastos em 500 cc  e D. Fernando Mascarenhas, em 350 cc.

Fotos Colecção JM Mascarenhas

Henrique Lehrfeld

Henrique Lehrfeld, apesar do nome "estrangeirado", nasceu em Lisboa e foi um dos heróis portugueses por excelência, muito activo nos anos 30 com o seu inseparável Bugatti T35B.
Conhecido no Brasil como "o galgo das montanhas", foi no Rio de Janeiro que conquistou um dos mais importantes resultados da sua carreira, no Circuito da Gávea de 1935, onde conquistou um brilhante 2º lugar mesmo depois de ter sido obrigado a parar para mudar uma roda. Para a História fica o registo da volta mais rápida da prova, à estonteante média de 74, 208 km/h. Mas já tinha ganho no Campo Grande, em Setúbal, no Porto e no Estoril, entre outros circuitos, e participou em provas do Grande Prémio de Montanha (Campeonato da Europa) disputadas em Barcelona, Praga e Berlim.
Leiam agora esta história de espantar, publicada num jornal da época.
" Tinha então um potente Bugatti. Lisboa inteira conheceu aquele carro esguio que roncava, de escape aberto, e subia a Avenida como um foguete. Um dia, um sinaleiro quis parar o carro. Lehrfeld passou-lhe uma tangente às botas, produzindo tal deslocação de ar que o guarda viu o apito cair-lhe da boca.
O sinaleiro chamou a atenção do corredor: - "Aqui na avenida não pode andar a mais de 30"!
 - "Não pode ser", respondeu o grande ás. - "A 50 entra ele na garagem! Bem vê, isto não é carro para acompanhar funerais..."
Já não há heróis assim...
(Agradeço a colaboração de Angelo Pinto da Fonseca)




Aqueles Gloriosos Malucos

Em 1932 disputou-se aquela que terá sido uma das primeiras grandes maratonas automobilísticas em Portugal. Para a Grande Prova de Resistência e Turismo Porto Estoril partiram do Palácio de Cristal, no Porto, 22 concorrentes, para percorrerem um percurso de 2165 quilómetros através do país profundo, numa época em que algumas zonas do interior ainda estavam muito mal servidas por estruturas rodoviárias.
Ao longo de cinco dias as equipas enfrentaram toda a espécie de dificuldades, tais como avarias mecânicas (muito frequentes, na altura), estradas de má qualidade, sinalização inexistente e até meteorologia adversa. Alguns troços eram percorridos de noite, o que provocava sérios problemas de visibilidade, uma vez que os faróis dos carros eram claramente ineficazes e os "caminhos" (era disso que se tratava) não tinham iluminação de qualquer espécie. 
Leopoldo Roque da Fonseca, em Buick, seria o vencedor, com Eduardo Ferreirinha ( Morris) em segundo e Eurico Serra (Chrysler) em terceiro.

Assim se andava (?) nas estradas de Portugal dos anos trinta.
Em baixo, à esquerda, o vencedor Leopoldo Roque da Fonseca & senhora. À direita, a equipa Morris, formada por Arnaldo Stockler / José Alves Lopes, Eduardo Ferreirinha / Eugénio Teixeira e Jorge Ortigão Ramos / Fernando Santos Dias


Campo Grande, 1932

Em Abril de 1932 disputou-se o II Circuito do Campo Grande, na altura a única "pista" existente na capital. Realizavam-se corridas com uma hora de duração, com prémios para os líderes aos 20 e aos 40 minutos.
Gaspar Sameiro, à média de  100,195 Km/h, foi o vencedor na categoria "corrida", tripulando um Ford equipado com pneus Englebert e usando carburante Vacuum. Em segundo lugar ficou Vasco Sameiro, em Delage, que usava pneus semelhantes mas utilizava carburante Atlantic. Diogo Cabral, em Bugatti, ganhou a categoria "sport".
 Os concorrentes queixavam-se da dificuldade em fazerem ultrapassagens, uma vez que as rectas do circuito eram demasiado curtas. Isso dava vantagem a quem largasse na linha da frente da grelha de partida, cujas posições eram atribuídas em função do número de inscrição dos carros.



Gaspar Sameiro, no Ford "Miller" de Manoel Menéres.