Pachancho - Sinfonia Metálica




Uma história dos Heróis do automobilismo nacional da primeira metade do século XX não poderia nunca ser feita sem mencionar a Fábrica Pachancho, localizada nos arredores de Braga, que foi (e continua  a ser) uma referência nacional e internacional na produção de componentes para motores de automóveis e motos, nomeadamente pistões, como se constata pela notícia-publicidade em anexo relativa ao I Circuito Internacional do Porto de 1950.
A narração do filme é da responsabilidade de Fernando Pessa, uma figura lendária da informação portuguesa do século passado.

http://restosdecolecçao.blogspot.com                                           A fábrica "velha", como lhe chamavam

Maserati 150S

Para o VII Circuito Internacional do Porto, disputado em 1956, D. Fernando Mascarenhas adquiriu nada menos que dois Maserati, um para cada uma das corridas disputadas, tendo utilizado este modelo (150S) na Taça Cidade do Porto, prova destinada a carros com cilindrada inferior a 1500 cc. O resultado não foi brilhante, tendo o Maserati nº 2 terminado em 5º lugar a corrida que foi ganha pelo recentemente falecido Roy Salvatori, em Cooper 39 Climax, com Filipe Nogueira em segundo lugar, ao volante de um Porsche 550 Spyder.
O Maserati 150S foi produzido entre 1955 e 56, tendo sido construídos apenas 26 exemplares, quase exclusivamente destinados a clientes. Tratava-se de um carro dotado de um chassis tubular e equipado com um motor de quatro cilindros em linha, capaz de produzir cerca de 140 bhp às 7.500 rpm. Apesar da vitória conseguida por Jean Behra no circuito de Nurburgring de 1955, durante a fase de desenvolvimento e promoção, o Maserati 150S dificilmente poderá ser considerado como uma história de sucesso.
Como curiosidade, assinale-se a participação nesta prova de um tal Jack Brabham, ao volante de um carro idêntico ao do vencedor (Cooper 39 Climax). Não terminou.

Bibliografia - World Sports Racing Prototypes
Fotografia - colecção família D. Fernando Mascarenhas

Duas fotos inéditas de D Fernando Mascarenhas na Maser 150S. Raro carro que morreu prematuramente com a alteração do regulamento em termos de cilindrada , mas que até na 
classe 1500 em circuitos de percurso meio road race devoravam a concorrência
Este carro tem o numero de chassis 1666 e foi "vestido" por Fiandri , talvez não o mais bonito dos fatos, mas era diferente .

Luis



Equipa Ford - 1930/32

"A mais valiosa das Equipes - Equipe Ford"
Da esquerda para a direita:
Gaspar Sameiro, vencedor do Circuito de Vila Real 1931. Eduardo Ferreirinha, primeiro prémio da rampa da Penha 1930 e segundo prémio do Circuito de Vila Real 1931. António Bores e Silva, quarto prémio do Circuito de Vila Real 1930. António Alberto de Souza Guedes, 4 horas e 55 de Lisboa ao Porto e Porto- Lisboa em prise directa.
Gaspar Sameiro conquistaria também o segundo prémio do Circuito de Vila Real de 1932, sempre em Ford A, tal como Ferreirinha e Borges e Silva.

Bibliografia - Circuito de Vila Real 1931 - 1973, de Carlos Guerra
                      Foto - DigitArq Torre do Tombo


O Jaguar XK120 de João Lacerda

Em 1951, João Lacerda inscreveu-se no II Circuito Internacional do Porto (I Grande Prémio de Portugal)  com um Jaguar XK120 (#660130) exemplarmente preparado para corrida. Porém, o carro viria a sofrer um acidente durante os treinos devido a uma falha de travões e não foi possível repará-lo a tempo de participar no Grande Prémio, que se disputou num domingo 17 de Junho. De resto, este foi um fim de semana "negro" para os Jaguar, uma vez que nenhum dos XK120 que alinharam à partida - tripulados por Duncan Hamilton, George Wickens e Tommy Wisdon - terminou a prova.
Casimiro de Oliveira, em Ferrari F340 (#0082A), seria o grande vencedor da tarde, seguido por Vittorio Marzotto, em Ferrari 212 Export. Giovanni Bracco, em Ferrari F340, seria o autor da volta mais rápida ao circuito que tinha então 7,775 km de extensão, realizando uma média de 131, 532 km/h.

Foto - João Lacerda
Bibliografia - Revista Topos&Clássicos nº 106
                    - World Sports Racing Prototypes





Foto - José B. Lacerda, "Velocidade na Invicta"

Ainda o Ferrari # 0200ED

Semanas depois da sua estreia azarada na Boavista 1952, o Ferrari #0200ED de D. Fernando Mascarenhas participa no III  Circuito de Vila do Conde, que tem lugar a 31 de Agosto. Cerca de um mês depois terá lugar o IV Circuito de Vila do Conde, o único que se disputou no chamado "circuito grande".   Ostentando já a chapa de matrícula nacional, ID-18-48, o carro apresenta-se pintado de preto e exibe uma curiosa e "aerodinâmica" cobertura de faróis, provavelmente  resultado da criatividade de Manuel Palma, o responsável pela sua preparação.
À partida para a corrida apresentaram-se cinco concorrentes, todos em Ferrari (havia mais dois inscritos, mas não compareceram). Da primeira fila partiram Nogueira Pinto, Casimiro de Oliveira e Vasco Sameiro, enquanto que D. Fernando Mascarenhas dividia a segunda fila com Guilherme Oliveira. No final, Casimiro levaria o seu Ferrari 225S amarelo à vitória, ficando D. Fernando em segundo lugar com duas voltas de atraso a separá-lo do vencedor.
À noite, no jantar de gala, os prémios foram entregues por Bento de Sousa Amorim, Presidente do Município, ele próprio um automobilista de mérito que contava com algumas participações no Rallye de Monte Carlo.

Bibliografia - Jornal "Renovação". Biblioteca Municipal José Régio, Vila do Conde


Ferrari 225S #0200ED

 O Grande Prémio de Portugal de 1952 iria assistir à estreia em competição do Ferrari 225S Vignale Spyder chassis #0200ED, que D. Fernando Mascarenhas acabara de adquirir em Itália. É este mesmo carro que vemos na imagem a ser conduzido à grelha de partida pelas mãos de Manuel Palma,  colocando-se logo a seguir ao Jaguar C Type (#XKC004) de Duncan Hamilton. Um pouco mais atrás estão os dois Lancia Aurelia B20 de Salvatore Ammendola e Felice Bonetto.
 Registe-se como curiosidade o facto de o Ferrari nº 21 ostentar no lugar da chapa de matrícula o seu  número do chassis (0200ED). Pouco depois, no circuito de Vila do Conde, este mesmo carro iria surgir pintado de preto e com a matrícula portuguesa ID-18-48.
D. Fernando Mascarenhas não terminou o Grande Prémio de 1952, cujo vencedor seria Eugénio Castellotti,  em Ferrari 225S Barcheta Touring, tendo percorrido as 50 voltas ao circuito à média de 138, 020 km/h. Casimiro de Oliveira, também em Ferrari 225S, seria o português melhor classificado,  terminando a corrida em 2º lugar com o mesmo número de voltas do vencedor.

Bibliografia - Sportscar Portugal (http://sportscarportugal.com.sapo.pt/)
                   - World Sports Racing Prototypes, non championship races.
Fotografia - colecção família D. Fernando Mascarenhas


Mercedes Benz 300 SL Coupé


Chegados a Portugal em meados da década de 50, os Mercedes Benz 300 SL Coupé rapidamente se tornaram nos veículos de referência no panorama automobilístico de então, nomeadamente em provas de velocidade. Equipados de série com um motor de 2996 cc e 6 cilindros em linha - inclinado a 45 graus para a esquerda para "caber" no respectivo compartimento  - produzindo cerca de 220 cavalos de potência que se transmitiam a uma caixa de quatro velocidades, os 300 SL não davam quaisquer hipóteses à concorrência em termos de desempenho e fiabilidade.
A imagem refere-se ao Circuito de Vila do Conde de 1960, disputado a 27 de Julho. Nada menos que quatro 300 SL foram inscritos para António Barros (vencedor), Horácio Macedo, Basílio dos Santos e Duarte Ferreira. No momento da partida é Horácio Macedo quem vai na frente, com Barros e Basílio na perseguição, vendo-se ainda o Jaguar XK 150 S de Maurício Macedo a espreitar uma luta que não era a sua.
António Barros, que era baixinho e "pesadote", levava desvantagem nas partidas tipo Le Mans, como se comprova pelo facto de ainda nem sequer ter tido tempo para fechar a porta do carro mais claro. Mas uma vez em andamento, o seu talento natural vinha ao de cima e dificilmente se deixava bater.
À noite, na distribuição de prémios, o Presidente do Município anunciou que a parte do circuito que ainda não estava asfaltada iria em breve sofrer obras de beneficiação. Era o fim do temível "empedrado"que tantos problemas causava aos automobilistas.

Foto - colecção José Cabral Menezes
Bibliografia - http://teammini.blogspot.pt/, de José Mota Freitas
                    - Biblioteca José Régio, Vila do Conde



Manuel Carlos Agrellos

Para o Circuito de Vila Real de 1936, categoria Sport, apresentam-se à partida dezoito automóveis, entre os quais três Ford V8-54 para Jorge Melo e Faro (Conde de Monte Real), Manuel Carlos Agrellos e Emílio Hidalgo. Um quarto Ford V8-18 era tripulado por Adolfo Ferreirinha, que seria o vencedor da corrida.
Os três Ford V8-54 viriam a abandonar acorrida por avarias diversas, mas Manuel Carlos Agrellos ainda teria tempo para bater o record da volta mais rápida ao volante de um carro praticamente de série, com uma média de 91, 075 km/h. O anterior record pertencia ao Bugatti 35B de António Guedes de Herédia, que registou 90, 962 km/h no circuito de 1934. Porém, a maior parte da pista estava já asfaltada em 1936, o que não acontecia ainda em 1934, o que pode explicar a diferença nas velocidades conseguidas. 

Fotos - arquivo do ACP
Bibliografia - Circuito de Vila Real, 1931 - 1973, de Carlos Guerra

 O Ford V8 de Manuel Carlos Agrellos a caminho do record da prova … e do abandono.

 Manuel de Oliveira, o mais antigo realizador de cinema ainda em actividade, levou o seu BMW 315 ao segundo lugar absoluto.

Salão Automóvel de Lisboa 1934

Inaugurado pelo Presidente da República, general Óscar Carmona, em Abril de 1934, o Salão Automóvel de Lisboa teve lugar no Pavilhão de Exposições da capital, que hoje leva o nome de Carlos Lopes. Foi organizado pelo jornal "O Século" e o bilhete de entrada custava 2$50.
Nos anos 20 e 30 realizaram-se vários salões da especialidade em Portugal, sendo que a maioria teve lugar na cidade do Porto, no Palácio de Cristal, facto que confirma que o entusiasmo das gentes do norte pelo automobilismo já vem de longe. Em 1925 o Automóvel Clube de Portugal organizou um Salão de Lisboa  no Coliseu dos Recreios, mas este viria a saldar-se por um rotundo fracasso.
Registe-se a variedade de marcas presentes no Pavilhão de Exposições de Lisboa, muitas das quais já desaparecidas.

Colaboração do engº João Lopes da Silva
Foto - DigitArq, Torre do Tombo


Troféu Turístico Clube Shell

O Mercedes 300 SL do Conde de Monte Real à partida para a prova e durante a subida da rampa da Pena durante o chamado Troféu Turístico Clube Shell, uma prova disputada na Serra de Sintra em 1956.
Este seria o último carro a ser tripulado por Jorge Melo e Faro na sua longa  e bem sucedida carreira desportiva. Para despedida e por puro divertimento, o Conde de Monte Real usou este Mercedes 300SL para bater o record do percurso Lisboa - Paris.
Colaboração de Gonçalo Macedo e Cunha a partir de Gonga World





Este mesmo carro, ON - 14 - 68, foi um dos onze Mercedes 300SL importados em 1955, tendo chegado a Portugal em Junho desse ano para José Júlio Marinho, seu primeiro proprietário. Por curiosa ironia do destino, Ernesto Neves viria  a adquirir este "gullwing" alguns anos mais tarde, numa altura em que o mesmo se encontrava num estado de conservação que deixava algo a desejar (em baixo).

O ON 14 68 teve um caminho longo no automobilismo Português , desde o Conde Monte Real a Santos Mendonça . Com o FG 23 66 , foi o último a largar as corridas, no ano de 1964 .
Depois foram a cheia , o passeio pelo Tejo e outros problemas que o E Neves conhece melhor que eu , e hoje está bem de saúde na Itália.
 - Luis

Bibliografia - Mercedes em Portugal, de Adelino Dinis. Edições Vintage

IX Grande Prémio de Portugal 1960

Nem só de heróis portugueses se fez a história do automobilismo nacional das primeiras décadas, como aqui se constata. Os melhores pilotos e automóveis do mundo passaram por Portugal e em muito contribuíram para o desenvolvimento da paixão pelas corridas de automóveis em muitos milhares de pessoas que tiveram o privilégio de os ver em acção, tal como aconteceu com os autores deste espaço.
Esta extraordinária série de fotografias privadas, gentilmente cedidas por José Cabral Menezes, dá bem uma ideia das condições em que então se disputavam algumas corridas de Fórmula 1, nomeadamente no circuito da Boavista. Como se não bastasse o piso feito em "empedrado", rugoso e escorregadio, os verdadeiros Heróis que eram os pilotos daquela época ainda tinham que evitar os carris dos "eléctricos" e os fardos de palha que delimitavam alguns troços de pista.
Nas fotografias, o Ferrari nº 26 de Phil Hill, que abandonou por acidente, o Lotus Climax nº 12 de Stirling Moss e o carro idêntico de Innes Ireland, com o número 16. Jack Brabham, em Cooper Climax, seria o vencedor, tendo Jim Clark, em Lotus-Climax, conquistado o primeiro pódio da sua carreira, terminando em terceiro lugar. John Surtees, também em Lotus-Climax, obteve a sua primeira "pole"  e "Nicha" Cabral não conseguiu levar o seu Cooper-Maserati até ao fim da prova, devido a acidente.

Fotografias colecção José Cabral Menezes





Heróis Improváveis

A história das corridas de automóvel em Portugal não é feita apenas com vencedores e vencidos. Faz-se também com todos aqueles que participaram em provas apenas pelo prazer de participar e cujo objectivo era tão só  viver por dentro, ainda que de forma efémera, a grande aventura do automobilismo.
É para homenagear essas figuras, únicas e imprescindíveis, que hoje aqui trazemos alguns dos concorrentes ao Circuito de Vila Real de 1949, disputado numa altura em que a Europa estava ainda a sair da tragédia da II Guerra Mundial, o que justifica a presença em pista de automóveis pouco adequados a provas de velocidade, alguns dos quais tripulados por simples amadores locais. No Portugal de então quase nada acontecia de importante e as corridas de Vila Real traziam uma breve lufada de emoção a um país rural e deprimido que começava lentamente a recuperar de um atraso de décadas.
As imagens: 
 À esquerda, D. Afonso de Burnay, em Healey Westland Roadster e , à direita, António Pinto Correia, em Simca 8.
 Em baixo - António Camilo Fernandes, em Riley Sprite

Bibliografia:
 - Fotos Arquivo do ACP
 - Circuito de Vila Real 1931 - 1973, de Carlos Guerra




Supercortemaggiore 1953

Não foi feliz a participação de D. Fernando Mascarenhas no Grande Prémio Supercortemaggiore de 1953. O Ferrari 250MM ficou com a aerodinâmica alterada devido a uma saída de estrada, mas o piloto português escapou sem problemas de maior.
Este mesmo chassis, #0326MM, pertence agora a um coleccionador de Hong Kong e surgiu nas Mille Miglia de 1994 na configuração que pode ver-se na fotografia de baixo.





Um Midget na Parada

A "Parada", ou melhor, o Sporting Club de Cascais, era uma instituição de fortes raízes monárquicas que existiu entre 1879 e 1974, frequentada pela alta burguesia e pela aristocracia nacional e internacional, ao ponto de então se poder fazer a seguinte distinção entre as pessoas: "é-se da Parada, ou não se é". Consta que Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão frequentavam o local e tudo leva a crer que foi lá que se realizou o primeiro jogo de futebol em Portugal. 
Nos anos 50 foi construída nos jardins da "Parada" uma pista oval em cinza (ou gravilha), a exemplo das que existiam nos Estados Unidos e alguns países da Europa, onde se disputavam animadas provas de perseguição automóvel. Foi numa dessas competições que o Conde de Monte Real se apresentou com este Midget especialmente construído para este tipo de piso, um carro de corrida feito "à escala" e que vinha normalmente equipado com um motor monocilíndrico de 250cc, podendo no entanto existir outras versões consoante o regulamento das provas em que participavam.


Um dos muitos Midgets artesanais produzidos nos EUA e projectados especialmente para utilização em pistas de cinza ou gravilha.

II Rallye de Miramar 1949

A equipa formada por Jorge Seixas e Martinho Lacasta, em Allard, venceu brilhantemente o II Rallye de Miramar, disputado em volta daquela então lindíssima praia do norte de Portugal. Manuel Nunes dos Santos, acompanhado por Jaime Rodrigues, levaria o BMW 328 até ao terceiro lugar da classificação geral.
Um jovem quase desconhecido, Joaquim Filipe Nogueira, deu nas vistas ao vencer a III categoria, ao volante de um Simca.





Alguns dos participantes, em retrato de família. O Allard de Jorge Seixas está em primeiro plano.
Esta foto pertence à biografia de mestre Jaime Rodrigues publicada em www.interclassico.com

Helga Liné

Ontem, muito mais que hoje, as corridas de automóveis geravam em torno de si próprias um ambiente de "glamour" e sofisticação que poucos desportos poderiam reivindicar. O facto de alguns dos principais  protagonistas serem ricos aristocratas ou homens de negócios que se divertiam arriscando a vida, fazia com que o elemento feminino marcasse quase sempre presença em quantidade e, como se pode ver pela imagem, em qualidade.
A fotografia que se junta representa bem o "país a duas velocidades" que era o Portugal dos anos 50. A cena passa-se durante o fim de semana das corridas de Vila Real e nela se podem ver, à esquerda, o Marquês de Fronteira (D. Fernando Mascarenhas) e, à direita, o Conde de Monte Real (Jorge Melo e Faro). Entre ambos está a belíssima actriz Helga Liné e uma outra figura que não consegui (ainda) identificar.  Envolvendo este grupo e, presume-se que ardendo de espanto, está o povo rural, atrasado e esquecido de Trás os Montes. Seriam necessários pelo menos mais 20 anos para que as coisas começassem a mudar.
Helga Liné nasceu na Alemanha, em 1932, mas  procurou refúgio em Portugal logo no início da Segunda Grande Guerra Mundial. Foi acrobata e artista de circo, tornando-se depois modelo e actriz de teatro de revista. Como seria de esperar, não lhe faltaram "protectores" que a ajudaram a progredir na carreira e a entrar para o mundo mágico do cinema, onde acabou por conseguir uma certa notoriedade como protagonista de filmes de terror (quem diria?), a maior parte produzidos em Espanha.

Fotografia - colecção família D. Fernando Mascarenhas


Comentário de um leitor  parcialmente identificado, a quem muito agradeço a colaboração: 
"A pessoa não identificada,que está do lado esquerdo da Helga, era um dos melhores amigos do D. Fernando. Era meu pai e chamava-se Zacarias Pachancho, das Fabricas PACHANCHO de Braga."

No Meio da Grelha

Invulgar imagem obtida sensivelmente a meio da grelha de partida para o Grande Prémio do Porto de 1954. Nela são visíveis o Cooper T33 de Peter Whitehead, com o nº 8, o Talbot de Charles Pozzi, com nº5, o Ferrari 250MM nº 19 de Nogueira Pinto e o HWM nº9 de Georges Abecassis.
Charles Pozzi, que viria a tornar-se no representante da Ferrari para França, estava já no ocaso da sua carreira de piloto que, não tendo sido particularmente brilhante, ainda lhe permitiu participar, ao volante de um Talbot Lago, no primeiro Grande Prémio de França de Fórmula 1, que teve lugar em 1950
O vencedor da corrida da Boavista seria Luigi Villoresi, em Lancia D24.


Manoel Menéres

Seria impensável fazer uma abordagem à história do automobilismo português sem fazer uma referência especial a Manoel Menéres, um homem extraordinário que congregava em si próprio os genes de construtor, técnico,  industrial,  estratega, entusiasta, pioneiro, visionário, etc, que faziam dele uma figura ímpar do Portugal da primeira metade do século XX.
Fundador da empresa Manuel Alves de Freitas & Cia Lda, do Porto, o maior concessionário Ford do país, Manuel Menéres começa em 1930 a desenvolver uma estratégia de marketing assente na participação de automóveis da marca em competição. Para o efeito, dá início a uma intensa colaboração com Eduardo Ferreirinha, um "mago" da mecânica já com créditos firmados, e partem ambos para a criação de um veículo experimental a partir da mecânica de um Ford A. A adopção de cabeças Miller para o motor, as alterações do chassis e a construção de uma nova carroçaria acabaram por gerar resultados surpreendentes que se traduziram por vitórias na Rampa da Penha e no Quilómetro Lançado do Mindelo.
Em 1936, esta mesma parceria Menéres / Ferreirinha estaria na génese da primeira verdadeira equipa de corridas criada em Portugal, através da produção de três carros exclusivamente dedicados à competição e construídos a partir de chassis Ford amplamente modificados nos quais eram montados motores V8, também da Ford.

Manuel Menéres e uma das suas sua primeiras criações: o Ford A transformado por Eduardo Ferreirinha.


Apresentação da equipa Ford, em 1936. O carro nº 3 foi entregue a Eduardo Ferreirinha, o nº 2 a Gilles Holroyd e o nº 1 a Manoel de Oliveira, esse mesmo, o cineasta.

Bibliografia e fotos - "Manoel de Oliveira, piloto de automóveis", de José Barros Rodrigues. Edições Caleidoscópio, 2008.

Queria aproveitar para aqui recordar com saudade, meu Avô Manoel Menéres (1898-1974), pioneiro da marca Ford e um dos seus grandes impulsionadores em Portugal. Era um leader por natureza, um homem de visão. Marcou a sua época, deixou obra que se tornou bem patente, tanto no campo industrial, agrícola, como no social em prol dos mais desfavorecidos e ainda no automobilismo desportivo e aviação. ANTÓNIO MENÉRES

Um Toque de Classe

João de Castro não ficará na história do automobilismo nacional pelas suas conquistas em pista que, sendo respeitáveis, não se comparam com as obtidas por algumas grandes figuras do seu tempo. Porém, será reconhecido pela sua exuberante vida de "playboy" e pela invulgar generosidade  de que deu mostras quando se tratava de ajudar outros pilotos com mais talento mas com muito menos recursos financeiros. Nomes como "Mané" Nogueira Pinto, Borges Barreto e Américo Nunes, entre outros, dificilmente chegariam a ser o que foram se não tivessem o indispensável "empurrão" fornecido por João de Castro.
Cito Nicha Cabral, na sua magnífica biografia escrita por Adelino Dinis:
"Quanto ao Porsche do Mané, tinha sido comprado a João de Castro, que era representante da NSU e tinha um estabelecimento na Duque de Loulé. Era muito rico e ajudou Borges Barreto na sua carreira como piloto. O João de Castro gostava muito do Mané e se o Carrera não lhe foi oferecido, pouco faltou."
 Na imagem, obtida durante a Taça Cidade de Lisboa de 1954, João de Castro (nº10), apresenta-se com o Porsche 356 mais configurado para um Concurso de Elegância (note-se a faixa branca nos pneus…) do que para uma prova de velocidade. Como se tal não bastasse, "escondeu-se" debaixo do pseudónimo Norberto Paz com o objectivo de fazer com que as suas proezas automobilísticas não chegassem aos ouvidos do pai Castro e se acabassem os financiamentos que os seus 29 anos de então exigiam.
Já não há Heróis assim...
Na outra imagem vê-se o mesmo carro, semanas antes, submerso por um manto de neve em … Monsanto.
Sim, nevou copiosamente em Monsanto no ano de 54.
Bibliografia:
- Nicha, de Adelino Dinis
- Fotografias - Colecção Domingos Palha da Costa e família João de Castro.


Os Louros do Vencedor

D. Fernando Mascarenhas não era apenas, como alguns tentavam fazer acreditar, um rico aristocrata que se divertia fazendo corridas de automóveis. Tinha talento e cultivava (às vezes de forma excessiva) o risco, factores que em conjunto lhe proporcionaram algumas indiscutíveis e mercidíssimas vitórias.
Uma delas aconteceu no circuito de Monsanto de 1954, quando D. Fernando se sagrou vencedor da Taça Cidade de Lisboa ao volante de um Jaguar XK120. A seguir classificaram-se Filipe Nogueira (Porsche 356), em 3º João Lacerda (Alfa Romeo 1900), 4º Nunes dos Santos (Alfa Romeo 1900), 5º Alberto Graça (Porsche 356), 6º Abreu Valente (Porsche 356), 7º João Graça (Porsche 356) e em 8º João de Castro (Porsche 356), que corria sob o pseudónimo "Norberto Paz". Filipe Nogueira(2,000cc) e Alberto Graça (1300cc) venceriam as respectivas classes.
Na imagem, D. Fernando Mascarenhas em pose de vencedor, encostado ao Jaguar, tendo do lado oposto a imagem sempre presente do seu "anjo da guarda", Manuel Palma, o responsável pela preparação do carro.



João Lacerda / Jaime Azarujinha, Monte Carlo 1952

João Lacerda tem o seu nome definitivamente ligado à história do automobilismo em Portugal, quer pelos resultados desportivos obtidos em muitas e difíceis competições, quer pelo vasto legado que deixou atrás de si e que hoje muito enriquece o património desportivo (e cultural) do nosso país. O Museu do Caramulo, por exemplo.
Em 1952, João Lacerda e Jaime Azarujinha partiram à conquista de Monte Carlo, abordando aquela que era (e continua a ser) a prova raínha do calendário internacional. Ao volante de um improvável Citroen 15 / 6 "traction avant", a equipa portuguesa conseguiu um brilhante 13º lugar absoluto, sendo o melhor de todos os carros da marca à chegada. Assim começou a escrever-se a fantástica história da Citroen no Mundial de Ralis, a qual ainda hoje perdura com os resultados que se conhecem.
Os vencedores da extremamente difícil edição de 1952 seriam Sidney Allard e Guy Warburton, em Allard P1, tendo Stirling Moss e John Cooper (que luxo de equipa!!!) terminado em segundo lugar da Geral, com um Sunbeam Talbot. Partiram 328 concorrentes, mas apenas 167 chegaram ao fim, o que diz bem da dureza da prova.
Junto uma esclarecedora imagem do Col de Braus, onde se disputou uma prova de regularidade com 74 quilómetros de extensão e que subia acima dos 1,000 metros de altitude. Os relatos da época dizem que havia tanta neve acumulada em cima das árvores que estas se inclinavam perigosamente para cima da estrada.
Bibliogafia:
- Revista Topos & Clássicos nº 106, Fev 2010
- The 1952 Monte Carlo Rallye, by Goran Norlander
Fotos - João Lacerda
 

 Em baixo, duas imagens que atestam bem as dificuldades que os concorrentes tiveram de enfrentar.

III Volta a Portugal

Em Julho de 1934 teve lugar a terceira edição da Volta a Portugal em Automóvel, organizada pelo jornal "O Volante", publicação regular de referência em matéria de automobilismo e aviação. Os vencedores da prova seriam os irmãos Adolfo e Eduardo Ferreirinha, em Ford (foto de cima), ficando o MG da equipa António Herédia / Manuel Queiroz em primeiro lugar da classe A (fotos de baixo).
Fotografias - Arquivo Nacional da Torre do Tombo (DigitArq) e Hemeroteca Municipal de Lisboa (O Volante)





Os Ferraris Amarelos

Para o Circuito de Vila Real de 1952, os principais protagonistas portugueses da época - Casimiro de Oliveira, Vasco Sameiro e D. Fernando Mascarenhas -  equipam-se com os Ferrari 225 S Vignale Spider. Os carros dos dois primeiros são inscritos pela Escuderia CSC, apoiada pelo Conde da Covilhã, e aparecem em Vila Real pintados de amarelo.
Na imagem pode ver-se Vasco Sameiro quando se preparava para alinhar o seu Ferrari nº 22 na grelha de partida para o XI Circuito de Vila Real. As coisas não lhe correram de feição e o piloto nortenho acabaria por abandonar a prova no decorrer da 12ª volta, quando comandava a corrida, devido a uma avaria de travões.
Casimiro de Oliveira teve uma vitória tranquila, acabando por deixar o segundo classificado, D. Fernando Mascarenhas, a uma volta de distância.
Registe-se a presença em Vila Real de algumas figuras de primeira grandeza no panorama automobilístico internacional de então, tais como Felice Bonetto, Clemente Biondetti e Eugenio Castelotti. Com excepção deste último, que abandonou por acidente, os outros foram claramente batidos pelos "heróis" portugueses.
Foto de Manuel Meneres
Bibliografia - Circuito de Vila Real 1931-1973, de Carlos Guerra


Pouco antes da corrida de 1952, em Vila Real. A actriz Helga Liné, D. Fernando Mascarenhas, Jorge Reis, D. António Mascarenhas, Jorge Monte Real (de chapéu) e mais alguns amigos durante um passeio nas imediações do circuito.


Stirling Moss / Porsche vencem em Monsanto

Não foram muitas as vezes em que Stirling Moss disputou corridas ao volante de um Porsche e foram ainda menos as vezes em que venceu para a marca de Stuttgart. Uma delas aconteceu em Portugal, no distante ano de 1955, quando o grande campeão inglês participou na Taça Governador Civil de Lisboa, em Monsanto, ao volante de um Porsche 550 Spyder.
Embora sob contrato com a equipa oficial Mercedes Benz de Grande Prémio para a época de 1955, Stirling Moss tinha permissão para correr por outras marcas sempre que as datas fossem compatíveis, daí resultando as provas que fez para a Porsche nesse mesmo ano, as 9 Horas de Goodwood (que não terminou) e o Circuito de Monsanto, que venceu.
Na imagem registada no momento da partida podem ver-se Stirling Moss, nº3, Filipe Nogueira, nº1 e Wolfgang Seidel, nº4. Um pouco mais atrás estão Laustenschlager, nº5, e D. Fernando Mascarenhas, nº2, todos em Porsche 550 Spyder.
No final apenas Filipe Nogueira terminou na mesma volta do vencedor, Stirling Moss, mas com cerca de um minuto de diferença. O terceiro classificado seria D. Fernando Mascarenhas.


Em baixo, os vencedores da tarde: Stirling Moss, vencedor da taça Governador Civil de Lisboa, em Porsche, e D. Fernando de Mascarenhas, vencedor da Taça Cidade de Lisboa, em Mercedes Benz 300SL


Raid Paris - Lisboa 1934

Em 1934, José Lopes da Silva e Henrique Lehrfeld decidiram tentar bater o tempo do combóio Sud Express na ligação Paris - Lisboa, na altura o meio de transporte mais rápido para esse percurso. Para o efeito equiparam-se com um Steyr, um pequeno carro de fabrico austríaco dotado de um motor de 4 cilindros e 1376 cc de cilindrada, com o qual percorreram os 1890 quilómetros de estrada em 29 horas e 40 minutos, batendo assim o Sud Express por 1 hora e 7 minutos. Lopes da Silva, que já era o detentor do record da Volta à Península, tornou-se assim num piloto muito apreciado pela Steyr, que logo o convidou para disputar os 200km da Alemanha desse mesmo ano, oferta que o português declinou para poder estar presente na Volta a Portugal.
Henrique Lehrfeld, que partira o braço direito num acidente dias antes do Raid Paris-Lisboa, apenas conduziu durante 340 km do percurso, tendo José Lopes da Silva que aguentar ao volante durante mais de 1500 km.
Já não há heróis assim...


A razão pela qual o Henrique Lehrfeld está de braço ao peito, é bem curiosa. 
No dia 3 de Junho de 1934 decorreu em Lisboa a I Jornada do I Circuito do Parque Eduardo VII. Compreendeu apenas duas corridas para carros de sport de 45 minutos cada, vencidas por António Guedes de Herédia, num Morris Minor, a de cilindradas mais baixas, e pelo Engº Francisco Ferreira, a de cilindradas mais elevadas, no Railton Terraplane.
Depois destas provas, Henrique Lehrfeld decidiu levar a cabo uma tentativa com o intuito de estabelecer o record da volta. Todavia, a Bugatti 35B galgou o passeio, derrubou três árvores e voltou uma maca dos serviços de socorro, tendo mesmo Lehrfeld recolhido ao hospital, em consequência dos ferimentos. 

Colaboração de Carlos Guerra.